segunda-feira, 29 de julho de 2013

Eu não conheço ex-papa algum: poder, fama e status

    Desde que Bento XIV renunciou, muitas notícias sobre a Igreja foram amplamente divulgadas pela mídia. Muito se falou sobre o conclave, sobre o futuro papa e sobre o futuro da instituição católica. Desde então, vim convergindo minhas ideias a respeito de todo esse burburinho e faço aqui uma síntese sobre o assunto.
   
 João Paulo II, ou melhor, Karol Józef Wojtyła; Bento XVI, ou melhor, Joseph Aloisius Ratzinger; e Jorge Mario Bergoglio, como Francisco, já foram (e no caso do último, está sendo) o símbolo máximo da Igreja Católica. Todos passaram pelo conclave, - vale frisar que a palavra vem do latim cum clave, que significa com chave - uma reunião fechada que somente os cardeais candidatos ao papado podem presenciar. Mais ninguém. Não sabemos o quê se passa lá dentro, sabemos que os fiéis do lado de fora esperam ansiosos pela fumacinha branca anunciando que "habemus papam" (temos um papa).




    João Paulo II, Bento XVI e Francisco, assim como todos os outros papas, nascem tendo detalhes em comum. Todos eles, quando mostram suas vestes brancas ao povo pela primeira vez, são saudados e aplaudidos fervorosamente, após uma reunião secreta, onde ninguém que está lá dentro, muito menos as pessoas aglutinadas ao lado de fora sabem (ou pelo menos não deveriam, no caso primeiro) quem será o supra-pontíficie. 
    
    Toda essa receptividade e esses aplausos são, no mínimo, esquisitos. O novo papa é uma pessoa comum, assim como todas as outras, que antes de tornar-se a figura mais amada do mundo dos católicos era um simples cardeal. Karol Józef Wojtyła era pouco conhecido antes de se tornar o papa João Paulo II, quem era, então, Joseph Aloisius Ratzinger? Jorge Mario Bergoglio mesmo sendo nosso vizinho eram poucos os que o conhecia.  E esses velhos símbolos que são derrubados após a conclave, no Vaticano, tampouco, foram aplaudidos por dezenas de milhares de fiéis em qualquer outro contato que realizara antes. O papa surge já tendo um amor incondicional de seus fiéis como se em sua primeira aparição fosse anunciar que já tinha acabado com a fome, que a pobreza não existia mais, que desigualdade e miséria foram liquefeitas, que não haveria mais guerras entre as nações e que nenhuma outra calamidade assolaria o mundo novamente. Porém, é apenas uma pessoa que está se mostrando ao mundo pela primeira vez. Ninguém ali presente já tinha, sequer, o conhecimento de quem seria o novo papa.



    
Ademais, todo esse amor que antes fora do papa que saiu do cargo, é canalizado à nova figura suprema. Papa João Paulo II sentiu isso; papa Bento XVI também; e com o papa Francisco não seria diferente. Entretanto, quando o povo passa a amar o novo papa, a figura do antigo dissipa e passamos a ouvir muito pouco sobre ele,  deixando de lado até mesmo as benesses realizadas, seja porque morreu ou renunciou: o status dele, muitas vezes, acaba junto com o reinado. Mesmo assim, se tratando de reuniões secretas, fama, poder e status, os fiéis, por mais redundante que isso possa parecer, continuam fiéis e a Igreja, continua com a mesma postura hierárquica de sempre: acumulando e gastando riquezas, visando status quo e tendo poder e fama.


Bento XVI: muitos artefatos dos papas, como a própria vestimenta, têm detalhes de feitos de ouro

domingo, 28 de julho de 2013

Revolução Egípcia

Após a Primavera Árabe em 2011, outro presidente é deposto no Egito


notícia:    Em 2011, países do Oriente Médio foram sacudidos pelos protestos revolucionários da Primavera Árabe. Povos de países como Egito, Síria, Líbia, Tunísia, Argélia, entre outros, foram as ruas protestar e manifestarem-se.
    No Egito, a onda de protestos começou no dia 25 de janeiro de 2011 e estendeu-se até o dia 11 de fevereiro do mesmo ano. As manifestações começaram em um ato de autoimolação, no qual uma pessoa ateou fogo em seu próprio corpo como forma de expressar sua raiva contra o sistema vigente: uma ditadura.
    Hosni Mubarak, o então presidente do Egito, assumiu o cargo em 1981 e ficou no poder até 2011. O reinado de Mubarak de 30 anos fez dele o presidente mais longevo da história do Egito. Os protestos culminaram na deposição de Mubarak e uma democracia fora instaurada no país, com posteriores eleições para presidente. 
    Após a renúncia de Hosni, Mohamed Mursi, ganhou as eleições e assumiu a presidência. Mursi assumiu o cargo em 30 de junho de 2012 e foi o primeiro presidente civil e primeiro ativista islâmico eleito democraticamente em seu país. Depois de pouco mais de um ano no poder, Mursi foi deposto, em 3 de julho de 2013. 
    

o processo:    O descontentamento começou em 2012, quando Mursi, 1º presidente democraticamente eleito do Egito, deu a si mesmo amplos poderes numa tentativa de garantir que a Assembleia Constituinte concluísse a nova Constituição. Desde então, houve uma cisão política no país. De um lado, Mursi e a Irmandade Muçulmana; de outro, movimentos revolucionários e liberais. Quando a nova Constituição, polêmica e escrita por um painel dominado por islamitas, foi aprovada às pressas, as manifestações em massa tomaram as ruas, e Mursi acionou o Exército. Mas enfrentamentos continuaram, deixando mais de 50 pessoas mortas. Diante da pressão, os militares deram um ultimato ao presidente, que tinha 48 horas para atender às demandas populares. Mursi insistiu que ele era o líder legítimo do Egito, e houve intervenção. O general Abdel Fattah al-Sisi foi à TV dizer que as Forças Armadas responderam aos anseios do povo.
    Como a nova Constituição era alvo de fortes críticas, o comandante-geral do Exército, o general Abdul Fattah al-Sisi, suspendeu-a temporariamente. e declarou em TV aberta o fato, e que o presidente da Suprema Corte assumiria a presidência, pondo fim no mandato de Mursi. Com isso, Adli Mansour comanda o governo interino formado por tecnocratas até que eleições presidenciais e parlamentares sejam convocadas. Com a Constituição suspensa, novas eleições devem ser anunciadas em breve.
    Em 30 de junho de 2013, no primeiro aniversário da eleição do presidente egípcio Mohamed Mursi, milhões (MILHÕES!) de manifestantes em todo o Egito tomaram as ruas e exigiram a renúncia imediata do presidente por causa de questões políticas, econômicas e sociais que haviam se intensificado em seu mandato (assim como houvera em 2011, quando manifestantes revolucionários depuseram o então presidente Hosni Mubarak). As manifestações, que foram em grande parte pacífica, tornaram-se violentas quando cinco manifestantes anti-Mursi foram mortos em confrontos e tiroteios.
    Mursi foi detido e teve sua prisão preventiva decretada pelas autoridades do país, no sábado, dia 27 de julho de 2013. Deve permanecer 15 dias detido por um rol de acusações, como a morte de soldados e conspiração com o grupo palestino Hamas. Para a Irmandade Muçulmana, movimento do qual Mursi faz parte, as acusações contra o ex-presidente são ''ridículas''. Além do mais, o ex-presidente está sob investigação por sua fuga de uma prisão no norte do Cairo, ao lado de outros líderes da Irmandade. Há suspeita de que o Hamas tenha participado do incidente, o que constituiria interferência externa ilegal, por lei egípcia.
    Em 8 de julho, 51 islamitas foram mortos durante a repressão do Exército diante de um quartel da Guarda Republicana, onde se acredita que Mursi esteja detido.
    Dessa maneira, Mursi é o segundo presidente do Egito deposto em menos de dois anos, pela força das ruas; por manifestantes revolucionários que lutam pelos seus direitos e de toda a nação egípcia.





opinião:    Não é difícil perceber que o fenômeno revolucionário pelo qual o Egito passou e está passando é extraordinário. Primeiro o ditador, o qual ficara 30 anos no poder, Mubarak foi deposto; dois anos depois, Mohamed Mursi, com um ano no cargo, também foi. Essa revolução feita pelo povo indo às ruas, nos mostra do que somos capazes se agirmos coletivamente. Essas lutas não visaram mais nada além de uma melhor sociedade, mais justa e igualitária, onde todos possam ter voz e vez. E, nessas duas vezes, o povo venceu: conseguiram derrubar uma ditadura que se estendia há décadas, para dar espaço a uma democracia.
    Devemos dar mais atenção ao povo egípcio. Os meios de comunicação em massa, como TV's, rádios, Internet entre outros, ao meu ver, não estão dando a ênfase que merecem essas lutas. Acho que esse fato deve ser amplamente divulgado e discutido pela sociedade.Tais mudanças radicais que aconteceram e estão acontecendo no Egito é algo incrível e que merecem toda a nossa atenção e nosso apoio. 
    

sábado, 27 de julho de 2013

Trabalho escravo é encontrado mais uma vez em uso por marcas de luxo no Brasil

Dessa vez, 28 bolivianos estavam tendo seu trabalho explorado, em condições análogas à escravidão


notícia:    Em março de 2013, o Jornal Nacional fez uma matéria que mostrava que 29 bolivianos trabalhavam em regime de servidão na Zona Leste de São Paulo. Um caderno encontrado indica que os bolivianos tinham que pagar a passagem (da Bolívia para o Brasil) com trabalho, exemplo de escravidão por dívidas. Algumas roupas apreendidas estavam com etiquetas das grifes Cori, Luigi Bertolli e Emme.
    Agora, uma fiscalização realizada no mês de junho na cidade de São Paulo, encontrou mais 28 bolivianos (18 homens e 10 mulheres) em tais condições de trabalho: escravidão. Os bolivianos confeccionavam roupas das grifes Le Lis Blanc e Bo.Bô (Bourgeois e Bohême) e ganhavam de R$12 a R$15, dependendo do grau de dificuldade da costura. As marcas pertencem à Restoque, grupo com 212 lojas no país e que encerrou o primeiro trimestre com receita líquida de R$ 195 milhões. "À Folha a empresa informou que não tem relação com as oficinas fiscalizadas.
Após blitz feita em 18 de junho em oficinas de costura clandestinas por força-tarefa do Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Receita Federal, a grife foi autuada e pagou R$ 600 mil de indenização aos estrangeiros, a maior parte em situação irregular no país. Cada trabalhador recebeu, em média, R$ 21 mil."
    Sem carteira profissional assinada, os costureiros trabalhavam de 12 a 14 horas em três oficinas na zona norte de SP. Seus locais de trabalho, eram também suas moradias, tais estabelecimentos foram considerados pelos fiscais em condições precárias de higiene e segurança, os cômodos eram separados por tapumes, e os banheiros, coletivos. Apesar de terem as chaves do local, alguns deles tinham que pedir permissão para sair. Eram descontados de seus pagamentos coisas como as passagens da Bolívia pra cá e Wi-Fi. "Pegamos vales para pagar nossas contas e depois descontam nas faturas", diz M., 37, que trabalha como costureiro há um ano.






opinião:    O sistema de escravidão predominou no Brasil entre os séculos XVI ao XIX, sendo usado em plantações de cana-de-açúcar, café, entre outras atividades. Os escravos viviam nas senzalas, que eram casas à parte, afastadas da Casa Grande (onde vivia o senhor de engenho, no caso do açúcar). As condições de vida nas senzalas eram precárias, ultrapassando de longe os limites do absurdo.  Além do mais, os escravos eram totalmente submissos a seus ''donos'', sofrendo torturas e até morte caso contrariassem (ou caso o senhor, simplesmente, quisesse ver alguém sofrendo) o sistema da fazenda.
    Agora, segundo matérias da Folha e do Jornal Nacional, as quais reportaram que 28 bolivianos, no mês de junho e 29, no mês de março, trabalhavam em sistema de escravidão nas zonas leste e norte de São Paulo, para marcas de grife. Os bolivianos ganhavam de R$12 a R$15 por peça e viviam no mesmo ambiente no qual trabalhavam. O que é isso, senão, escravidão? Coisas como até as passagens deles para cá eram descontadas de seus salários, além do wi-fi e outras coisas que possivelmente não foram divulgadas, como alimentação e vestuário. É a classe trabalhadora sendo explorada absurdamente pela minoria mais rica. Essas pessoas vieram enganadas da Bolívia para cá, em busca de melhores condições de vida e trabalho e o quê de fato encontram é um sistema de escravidão.
    Ademais, tais trabalhadores costuram para marcas que vendem suas peças caríssimas, como a Le Lis Blanc. Os consumidores-alvo dessas marcas são as pessoas da elite e da classe-média alta mais rica do país. São aquelas senhoras, esposas de donos de empresas multimilionárias, que têm 0% de interesse nas pessoas; individualistas ao extremo, pois, para pagarem valores bizarros de caro por uma peça de roupa, a pessoa tem que estar querendo investir apenas nela. Não enxergam mais ninguém, vêem apenas seu próprio bem. E saem desfilando, com seus carros luxuosos, como se fossem protótipos de manequins ambulantes, fazendo propaganda gratuita da marca. Esta agradece, pois, consegue ver o tipo de dados que seus usuários lhes fornecem para fazerem-lhes consumirem mais, com propagandas e publicidade, essas grifes trabalham da mesma forma que empresas-sereia como o Google e o Facebook.
    O sistema de escravidão não deve mais existir, de forma alguma, em qualquer parte do mundo. O trabalhador tem seus direitos e é dever do contratante respeitá-los. Há dois séculos a escravidão foi abolida, mas ainda percebemos resquícios desse sistema que torna o homem uma máquina de gerar lucros para empresas e empresário acumularem cada vez mais riquezas e o proletário se afundar em uma vida desonrada de pobrezas e misérias.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O preço pago pelos governantes para se esconderem atrás do carisma do papa

Lama cancelou dois eventos da JMJ (Jornada Mundial da Juventude)

notícia:    A organização da JMJ, em nota ontem, informou que dois eventos foram cancelados por causa do lamaceiro que se formou após chuvas. Cerca de 1,5 milhão de fiéis percorreriam pelo Campus Fidei, uma estrutura montada em Guaratiba, na zona oeste do Rio. O prefeito da cidade, Eduardo Paes, só foi convencido de cancelar o evento após técnicos o alertarem do risco que os jovens corriam -de saúde e acidentes. Paes disse que a jornada não recebeu "um tostão de dinheiro público". Segundo ele, o gasto de R$ 26 milhões informado na semana passada se referia a serviços públicos comuns aos grandes eventos, como limpeza pública, segurança e saúde. R$ 26 milhões. Ele afirmou que a dragagem de um rio e três canais que passam pela área custou R$ 6 milhões. O palco, que não poderá ser utilizado, consumiu R$ 5 milhões, valor que teria sido obtido com doações. Ou seja, ao todo, foram investidos R$ 37 milhões e o evento foi cancelado.


opinião:    R$ 37 milhões! Concordo que segurança e saúde são fundamentais em qualquer evento, seja ele pequeno ou grande. Respeito as crenças de qualquer pessoa e não discordo do ditado popular, "crenças não se discutem" (entretanto, existem diversas religiões africanas que estão no Brasil há 500 anos e nunca, sequer, chegaram perto de receberem tais investimentos). Um evento para 1,5 milhão de pessoas, precisa ter uma infraestrutura gigante, uma grande equipe de segurança e servidores de saúde prontos para qualquer eventualidade. 
    Porém, o momento em que estamos vivendo, não é propício para tais investimentos, precisamos deles, sim, mas de uma outra maneira. Pedimos, a quase toda hora, mais professores, mais hospitais, melhorias no transporte público, dos setores de saúde e do padrão escolar, mais segurança, entre outros, e fazemos isso com razão. Não foi à toa que fomos às ruas reivindicarmos nossos direitos e mostrar aos governantes seus deveres, durante os meses de Junho e Julho.
    Esse e outros tantos investimentos que foram realizados a fim de trazer o Papa ao Brasil, mostram-nos como cada dia mais nos tornamos mais individualistas. Tanta riqueza investida para satisfazermos um gosto pessoal, individual, de ver a supra figura religiosa pessoalmente, na nossa casa. O Papa não veio ao país acabar com a fome, com (de fato) a miséria, com o abismo existente entre a minoria mais rica e a massa mais pobre. Veio apenas para seus fiéis realizarem, ao seu lado, uma jornada. 
    Além disso, muitos governantes estão se aproveitando da situação. "Não trouxe ouro nem prata", disse o Papa quando seus pés tocaram em solo brasileiro (apesar de o terem trazido com isso). Toda essa humildade, todo esse carisma podem escoar aos governantes um alívio momentâneo. Com os focos voltados ao Papa Francisco, alguns políticos podem aproveitar a bondade dos fiéis e do Papa, para se safarem de boa parte das críticas dos protestos, pagando com dinheiro público a estadia do cardeal.

Governo do Estado de SP atrasa pagamento de férias a professores

  notícia:  Segundo a Secretaria de Educação, cerca de 1400 professores, os quais voltam ao trabalho na próxima Terça (30), não receberam o equivalente a 1/3 do salário, que é um DIREITO previsto por lei. Em nota, a Secretaria afirmou que lamenta o ocorrido, mas apenas 1% dos servidores -professores e outro funcionários da educação- foram atingidos. 
   
opinião:    Enquanto alguns professores levam sua rotina de trabalho como um peso nas costas, outros a levam com um sorriso no rosto, porém, divergências à parte, o salário de ambos são os mesmos (e não muito altos). Professores sejam da rede estadual, municipal ou federal, têm um papel ímpar a desempenhar. Como educadores, apoiadores e alfabetizadores, são eles que promovem uma base a seus alunos, a qual eles levarão consigo por toda ou boa parte da vida. Nesse atual modo de produção que vivemos hoje em dia, o capital também desempenha um importante papel (embora alguns outros ruins). Somos estimulados durante toda nossa existência à competição, sendo assim, o dinheiro serve (mas não deveria) de estímulo, de recompensa, aos nossos esforços. Muitos professores contavam e ainda contam com esse fundo até o resto do mês em suas contas, pois, ele é fruto das lutas dos servidores da educação, além do mais, é um direito deles (!). 
    Ademais, são por fatos como esses e outros que devemos continuar nas ruas. É o governo e suas altas companhas de publicidade que muitas vezes começam essas brigas e as ruas são o lugar certo para reivindicarmos nossas pautas! Concordo com a frase de um professor que foi às ruas no mês de Junho: "sou professor, ganho pouco e mesmo assim sigo feliz, pois, minhas mãos estão sujas apenas de giz."

As lutas de todo o Brasil já surtiram e ainda estão surtindo efeitos em prol de uma sociedade mais justa. A luta deve continuar!


Paulínia (SP) é primeira cidade do Brasil a anunciar tarifa zero após protestos.

Contra a internet, de Álvaro Pereira Júnior

No auge, a Kodak empregava mais de 140 mil pessoas e valia cerca de R$ 50 bilhões. Quando o Instagram foi vendido por R$ 2 bilhões ao Facebook, ano passado, tinha só 13 funcionários.
Para Jaron Lanier, um "insider" do Vale do Silício, esse exemplo resume tudo o que há de errado com a economia da rede. Sob a fachada de escolhas infinitas e liberdade total, esconde-se um modelo concentrador. "A internet destruiu mais empregos do que criou", fulmina.
A tese está exposta no livro mais recente de Lanier, "Who Owns the Future?" (a quem pertence o futuro?), lançado em maio nos EUA e ainda inédito no Brasil. Não é pouco o barulho que causou.
Com seus longos dreadlocks e gosto por música da Antiguidade, Lanier passaria facilmente por mais um freak californiano adepto de ideias exóticas.
Na verdade, ele é um dos maiores expoentes da internet. Também foi um dos criadores da realidade virtual.
No Vale do Silício (região da Califórnia que concentra os gigantes da web), já fez de tudo. Hoje, trabalha em uma divisão de vanguarda na Microsoft, onde estuda, entre outras coisas, a construção de elevadores para o espaço.
A encrenca da internet, na visão de Lanier, vem do perfil de seus criadores, nos anos 70 e 80. Com bom humor, diz que eram de dois naipes: "Ou maconheiros liberais, ou conservadores do tipo que usam rádios da faixa do cidadão para monitorar a polícia e escapar dela". Essas duas tribos, tão diferentes, coincidiam no seguinte: para ambas, "o anonimato era a coisa mais bacana".
Assim, criou-se intencionalmente uma web em que as informações vão se dissipando, como partículas perdidas em um universo em expansão. Ninguém sabe o que veio de onde, nem quem criou o quê. E a informação circula gratuitamente, também porque é "cool".
Bem, se ninguém quer pagar por nada on-line, é preciso criar um modo de fazer dinheiro. E aí, em busca de um caminho sustentável, a internet, tão "rebelde", adotou o modelo de negócios mais tradicional: vender anúncios.
Nessa hora, ninguém pode com gigantes como Google e Facebook. Lanier os chama de "servidores-sereias", pela capacidade irresistível de atrair usuários.
Quem vende o anúncio mais eficiente possível --e portanto pode cobrar muito por ele-- é quem sabe tudo sobre seu usuário. Ou porque rastreia toda a atividade on-line, como o Google; ou porque usa as informações fornecidas, voluntária e gratuitamente, pelo "internauta", como o Facebook.
Para processar essa quantidade colossal de dados, são necessários computadores muito poderosos. Que só portentos como Google, Facebook, Apple e Amazon podem comprar.
E assim se completa o modelo concentrador que Jaron Lanier combate. Bilhões de usuários fornecem informações e produzem conteúdo, sem cobrar, para os "servidores-sereias". Estes têm uma capacidade de processamento única, e transformam essas informações em trunfos para vender anúncios. Anúncios que vão atingir as mesmas pessoas que estão trabalhando de graça sem perceber.
É um modelo de tudo para uns poucos, e nada para muitos. Não forma uma classe média --só magnatas e proletários. Por isso, na visão de Lanier, não vai se sustentar.
Como alternativa, o autor apresenta uma solução polêmica: os micropagamentos. E dá o exemplo dos programas de tradução automática, como o Google Translate e o velho BabelFish.
São serviços prodigiosos. Fornecem traduções imediatas em dezenas de idiomas, mesmo os mais obscuros. Só que não funcionam por milagre. São abastecidos por traduções reais, feitas por seres humanos em algum lugar do passado.
Quando você pergunta ao Google Translate como se diz "quero comer um bife com batata frita" em polonês, o que ele faz é consultar um número astronômico de traduções "humanas" em seu banco de dados, e deduzir a resposta. No caso, "Chcę zjeść stek z frytkami".
Pelo modelo de Lanier, os seres humanos que, lá atrás, fizeram as traduções receberiam micropagamentos cada vez que seu trabalho fosse usado numa tradução on-line.
É um modelo complicado e utópico. Mesmo outros críticos da internet, como Evgeny Morozov, o atacaram violentamente (vale ler Morozov espinafrando Lanier: is.gd/EtiO2P).
Ainda que não se concorde com as propostas de Jaron Lanier, não dá para negar a clareza de suas análises. Que o livro saia logo no Brasil.